As coisas da Terra

Existem várias religiões pelo mundo e várias cabeças dentro do cristianismo que carregam um discurso dizendo que toda a criação é radicalmente má. Tudo que é material é mal, procede do maligno e te afasta de Deus. A espiritualidade sadia e correta é aquela que eleva nossa mente a uma espécie de estado espiritual para alcançarmos santidade e agradarmos a Deus, nos negando a toda espécie de prazer e deleite nas coisas da terra, um asceticismo radical que vai desde o sexo até os livros de fantasia e o sorvete de casquinha.

Mas essa não é o testemunho das escrituras a respeito da criação.

A palavra de Deus diz que tudo que Deus fez é bom. Ou melhor, nas palavras do próprio Deus, tudo que Ele fez é muito bom! O nosso Deus é um Deus materialista, ele gosta da matéria, afinal de contas, foi Ele quem a criou! Ele poderia ter criado seres somente espirituais, sem tato, sem calor e sem aromas, mas a sabedoria infinita optou por montanhas, arco-íris, estômagos, línguas, e da combinação do doce com o salgado e hoje, graças a Deus, nós podemos desfrutar do sabor delicioso de uma paçoca de amendoim.
E por que Ele fez assim?

Em primeiro lugar para a manifestação da sua glória, a criação comunica a glória de Deus. Os arcanjos confessam isso diante do trono de Deus incansavelmente: “Toda a terra está cheia da sua gloria” (Is 6:3). O salmista olha para as coisas que o cercam e maravilhado diz: “Os céus declaram a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos.” (Sl 19:1). Paulo usa a criação como argumento para a existência de Deus: “Porque seus atributos invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder, como a sua divindade, se entendem, e claramente se vêem pelas coisas que estão criadas, para que eles fiquem indesculpáveis” (Rm 1:20). E ainda Calvino diz “O mundo, sem dúvida, foi criado para que servisse de palco à glória divina”.

O mundo é um quadro e Deus é o artista.

Em segundo lugar, para nosso deleite. Se Deus nos criou com narizes e deu aroma as flores e ao mel é exclusivamente para nosso deleite, não existe mal em nenhum em pular na água sem camisa em um dia ensolarado, antes, devemos receber todas essas dádivas com gratidão ao doador de todas elas e assim o glorificamos em nosso deleite.

“Matheus, ficou um pouco confuso”, deixe-me dar um exemplo. Eu amo chessecake, principalmente o que a minha namorada, Lays, faz. Eu gosto tanto de chessecake e toda essa camada esfarelada embaixo de uma camada mais pastosa que fecha no topo com um azedinho de fruta que poderia até dizer que amo mais a sobremesa do que amo ela. Mas essa não é a única opção. O meu prazer na sobremesa não deve estar somente nela propriamente dita, mas deve me conduzir ao louvor da Lays pelo esforço e ato de amor. Desse modo o meu amor ao cheesecake não é uma ameaça ao meu amor a ela. Ela quer que eu desfrute do sabor do cheesecake, foi por isso que ela o faz. Dessa forma o meu prazer na sobremesa serve para aumentar ainda mais o meu amor por ela. Agora a Lays é honrada como uma fantástica cozinheira enquanto gozo da criação culinária dela. O mesmo serve para a criação de Deus.

A verdade é que a nossa visão das verdades espirituais seriam mais vagas sem as coisas criadas, nunca saberíamos o que é sede e fome espiritual sem um estomago e uma boca seca, mas graças a elas podemos hoje “provar e ver que Deus é bom” (Sl 34:8)

E através das coisas da terra, Deus nos ensina a ler suas verdades eternas. “Olhai as aves do céu” (Mt 6:26), “Olhai os lírios do campo” (Mt 6:28), “Vai ter com a formiga” (Pv 6:6). Há lições divinas nos campos e sementes, na areia e na rocha, nos odres e nas figueiras. Devemos procurar ler toda a criação, todos os filmes, as músicas, As Crônicas de Nárnia, O Senhor dos Anéis e todas as outras coisas que nos cercam com os óculos das escrituras.

“Mas Matheus, os filmes, as músicas, As Crônicas de Nárnia e O Senhor dos Anéis não foram criados por Deus”. Diretamente realmente não foram, mas a glória de Deus é manifesta nelas também, por que é Deus que dá dons aos homens para criá-las de igual modo. Como disse Tiago: “Toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vem do alto, descendo do Pai das luzes” (Tg 1:17), toda capacitação é vinda da parte de Deus, é ele que dá dons aos homens (Sl 68:18, Ef 4:8). Deus é glorificado pela tamanha engenhosidade dele na criação da mente humana já que essa nos leva sermos coparticipantes dele na criação. Ele nos deu a imaginação e C.S Lewis criou Nárnia, J.R Tolkien criou a Terra Média, o dom de Deus levou Mozart a reunir ritmo, harmonia e melodia em notas e compor “Allegro”, Deus me deu a batata e eu faço batatas fritas.

Mas que todas as coisas da terra leve nossa mente cativa ao doador de todas as dádivas, que sejam todas sombras daquilo que é verdadeiro. Que o sacrifício de Aslam nos leve ao sacrifício de Cristo, que Aragorn nos lembre do nosso rei sem coroa e sem glória, que o Quaterback do futebol americano nos aponte que a igreja tem um cabeça que é Cristo, que o abraço da mãe nos comunique o amor de Deus, e que a segurança do pai nos recorde do guarda de Israel.

Que nós nos deleitemos nas coisas da terra e glorifiquemos a Deus por elas por que “…seja Paulo, seja Apolo, seja Cefas, seja o mundo, seja a vida, seja a morte, seja o presente, seja o futuro; tudo é vosso,E vós de Cristo, e Cristo de Deus.”

1 Coríntios 3:22,23.

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